Kuwait Series

by Ricardo Silva

Kuwait city skyline ©2013

“Skyline” de Kuwait city    ©2013

Quando se fala do Kuwait geralmente a primeira coisa que nos ocorre é as imagens da guerra de 1992. De facto, a maior parte das pessoas com quem falo no dia a dia julga que o país vive ainda num cenário de guerra e que está numa situação muito similar àquela do Iraque. Nada de mais errado, o país é extremamente seguro embora se devam tomar as mais básicas precauções dado se tratar de um país Islâmico, bastante conservador e que se rege pelo menos em teoria, pelos princípios do Islão.

Embora seja um país seguro, não deixa de ser um mundo culturalmente estranho para um ocidental, mesmo para aqueles que se considerem “viajados”, de tal modo que os primeiros dias de estadia no país podem ser bastante difíceis. Porquê?

Para nós Portugueses, seres bastante sociáveis e comunicativos o Kuwait é radicalmente estranho, não quero dizer com isto que os Kuwaitis não sejam sociáveis, a verdade é que o são, mas os relacionamentos ocorrem sempre dentro da esfera familiar e em menor extensão entre amigos. Daí, um desconhecido é um desconhecido e merece tanta atenção quanto uma pedra da calçada. No entanto há que  distinguir aqueles que são Árabes, isto é naturais da península Arábica, dos Muçulmanos em geral, que são muito mais comunicativos e sociáveis, isto porque existe uma enorme comunidade de Egípcios, Turcos, Libaneses, Sírios, Paquistaneses, Afegãos, etc, a viver e a trabalhar no Kuwait e que são extremamente simpáticos e comunicativos, sobretudo os Egípcios que são muito prestáveis e bem humorados. De qualquer modo existe muita reserva na comunicação, pelo menos enquanto não se criam alguns laços (difíceis) de proximidade.

Depois há uma separação social muito acentuada, os Árabes consideram-se acima de todos os outros, depois vêem os Ocidentais, a seguir os Japoneses, Coreanos, Chineses, os restantes Muçulmanos, e depois a forma como se tratam os restantes imigrantes degrada-se bastante. Os Indianos e sobretudo os naturais do Bangladesh são os mais visados pelo gosto natural dos Kuwaitis em categorizar alguns à condição de servos ou (quase) escravos, homens cão como já ouvi. É claro que generalizações não podem ser feitas e obviamente que há pessoas bastante altruístas dentro da comunidade Árabe mas esta separação racial é bastante evidente mesmo nos meios institucionais. A título de exemplo, no aeroporto internacional do Kuwait os recém chegados da India ou do Bangladesh são separados dos restantes viajantes e forçados a sair em fila indiana encostados às paredes, para libertar o corredor para a “comodidade” dos restantes passageiros. As situações de assédio e descriminação sectária são abundantes, generalizadas e particularmente chocantes.

Outra característica do Kuwait tem a ver com a religião, que está intrinsecamente ligada a todas as situações do dia a dia. Pela manhã, a caminho do trabalho pode-se ouvir o Alcorão cantado pelo rádio do taxi, as mesquitas emitem as orações pelos seus poderosos altifalantes a qualquer hora do dia ou da noite e até nem mesmo os centros comerciais são imunes à divulgação das orações diárias. A religião assume-se de grande importância no relacionamento social. Não importa ser Muçulmano ou Cristão ou Judeu, importa acima de tudo acreditar em Deus, ser ateu é inconcebível e acreditar em outros deuses desprezível. É recomendável muito respeito pela religião local como também pelo Cristianismo e pelo Judaísmo, as três religiões que partilham o mesmo Deus, Allah.

Num centro comercial.     ©2013

©2013

Pois tive a oportunidade de trabalhar no Kuwait e este conjunto de imagens foi captado durante os meus primeiros meses de permanência no país. Fotografar no Kuwait não é fácil, existem muitas áreas onde a captação de imagens é proibida e a cultura local é adversa à fotografia. Fotografar um edifício público ou uma mulher árabe, mesmo a dezenas de metros de distância pode trazer imensos problemas e é muito fácil acabar numa esquadra da polícia por causa de uma fotografia mesmo de um telemóvel, sem querer entrar em paranóias, é preciso ter pelo menos alguma cautela.

Não há muitos perigos nem quaisquer razões para stress aqui desde que se cumpram as regras mais básicas do país. É proibido o álcool, a carne de porco, a pornografia, a homossexualidade, a prostituição e o sexo ou os relacionamentos fora do casamento. Durante o ramadão é proibido comer ou beber em público durante o dia. A blasfémia ou o tráfico/porte de drogas pode levar à pena de morte. Se têm motivações políticas ou religiosas opostas à corrente geral, guardem-nas para vós, isto é uma espécie de regime ditatorial, não é uma democracia livre. Cumpram-se estas regras e não haverá quaisquer problemas, porque apesar de tudo o Kuwait é um dos países mais livres do médio oriente.

©2013

©2013

“-Welcome to the easy way of live!”

Com este lema assim somos recebidos, e de facto a vida neste país é muito fácil, pelo menos para os expatriados privilegiados. Os salários são robustos, não  se paga a água, a electricidade ou o telefone fixo. A internet é geralmente gratuita no prédio e quase todos os prédios possuem ginásio e piscina. Almoçar pode custar menos de 2 euros e cada litro de combustível fica-se por uns módicos 0,16 euros. Pois é… e para além disso não se pagam impostos! Nada de IVA, IRS, IRC, nem selo para o carro, nem IMT, nadinha de nada. As receitas do petróleo dão para isso.

O clima à excepção do verão é agradável, os restaurantes são bons e requintados, existem bons ginásios e muitos clubes de praia com piscinas, parques infantis, instalações desportivas etc. Os centros comerciais são gigantescos e fabulosos, com produtos que nem nos melhores sonhos existem por cá em Portugal, e com preços a acompanhar.

Vive-se bem e isso é evidente nos carros que se encontraram pelas ruas. Curiosamente e apesar de uma moradia em média ter cerca de 3000m2 de área, ninguém constrói garagens. Em média cada Kuwaiti tem 7 carros deixados na rua, à mercê do sol e das areias do deserto.

1. A arquitectura

Kuwait towers    ©2013

Kuwait towers      ©2013

O Kuwait é um país pequeno e a paisagem monolítica, dito isto não são precisos mais de 3 dias para ficar a conhecer tudo o que o país tem para mostrar. A arquitectura, à excepção de alguns edifícios icónicos como as Kuwait Towers ou o edifício da assembleia nacional da autoria de Jørn Utzon e de algumas construções modernas, é francamente pobre. Felizmente existem obras de design de interiores de excepcional qualidade para apreciar, sobretudo restaurantes e lojas nas principais zonas comerciais. Esta divisão qualitativa entre os espaços urbanos e os espaços interiores reflete naturalmente a cultura Árabe que tende a privilegiar o espaço interior/familiar do espaço exterior/público.

Os edifícios representativos do poder económico e político são naturalmente mais sumptuosos e exuberantes e podemos encontrá-los com facilidade na zona central de Kuwait city, como também encontramos manifestações exteriores de riqueza, acompanhadas de falta de gosto, em muitas moradias.

A city de Kuwait    ©2013

Liberation tower ©2013

Viva towers em Salmiya    ©2013

Viva towers em Salmiya ©2013

As Viva towers são o marco dominante de Salmiya, o bairro mais ocidentalizado do Kuwait onde é mais provável encontrar estrangeiros e onde os customes são mais brandos. De noite exibe um formidável espetáculo de luz.

Passadiço sobre a gulf street no Marina shopping     ©2013

Passadiço sobre a gulf street no Marina shopping ©2013

Edifício em construção    ©2013

Edifício em construção ©2013

Existem muitos edifícios em construção no Kuwait e é mesmo possível ver cidades completas em construção, desertas de vida.

Cidade em construção perto de Camp Doha

Cidade em construção perto de Camp Doha.    ©2013

Cidade em construção perto de Camp Doha    ©2013

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2. O apartamento

Pois é aqui que se passa a maior parte do tempo no Kuwait quando não se está a trabalhar, já que não há muito para se fazer aqui para além de comer em bons restaurantes e fazer compras, é uma vida fútil.

O apartamento é uma espécie de prisão domiciliária sobretudo no verão, com as temperaturas a subirem acima dos 50 graus Celsius e a condicionarem qualquer desejo de aventura no exterior.

E depois não há a tradição da bica ou da mini que abrem as portas ao convívio.

A situação piora durante o Ramadão quando durante um mês o país quase que para por completo, e é impossível encontrar um restaurante ou café aberto durante o dia. O cenário é virtualmente o de uma cidade fantasma.

A falta de oportunidades culturais e de lazer é provavelmente uma das piores características do país.

Cortinas fechadas no Sol de verão.       ©2013

Cortinas fechadas ao Sol de verão. ©2013

A vista do apartamento.     ©2013

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Vista da janela sobre o bairro de Maidan Hawalli.     ©2013

Vista da janela sobre o bairro de Maidan Hawalli.     ©2013

3. O mar Arábico

O mar Arábico.     ©2013

O mar Arábico. ©2013

Com ondas gigantes de 40cm nos dias de tempestade isto mais se parece com um lago, a água é algo de poluída como também são as praias porque aqui come-se e deixa-se o lixo na areia. Mas pronto, não me posso queixar porque a melhor coisa que pode haver aqui é viver-se a 200m da praia, fazer umas caminhadas pela marginal da Gulf Street e comer os gelados locais (do melhor). Depois abundam os desportos de praia sendo relativamente barato alugar uma moto de água ou um recinto para jogar futebol. É possível também fazer passeios de barco ou de iate para lazer ou pesca desportiva.

©2013

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Não são muitas as mulheres que se aventuram em ir à praia e quando o fazem vão completamente vestidas, mesmo para dentro da água. Uma mulher também não se deita na areia, fica de pé ou sentada. As mulheres mais abastadas podem pagar para frequentar um clube de praia onde, em certos dias da semana têm a praia para si em exclusivo.

Porto de Shuwaikh.     ©2013

Porto de Shuwaikh. ©2013

Praia perto de Shuwaikh.     ©2013

Praia perto de Shuwaikh. ©2013

4. “Living”

É ao pôr-do-sol que a cidade ganha vida, e digo cidade porque 95% do Kuwait é a própria cidade do Kuwait, o resto é deserto. As temperaturas no verão começam a descer por volta das cinco da tarde até atingirem uns refrescantes 40 graus. É altura de sair, ir à praia, fazer umas caminhadas e ir a um bom restaurante. Aconselho vivamente uma ida ao velho Souk no centro da cidade onde se pode apreciar a culinária Árabe no seu melhor.

Banhos nocturnos.     ©2013

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E com algumas imagens mais me despeço, espero que tenham apreciado.

"O peixe e eu."      ©2013

“O peixe e eu.” ©2013

Motos de água para aluguer.    ©2013

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Levei para o Kuwait a minha Spotmatic e 3 takumares e claro está, um “back” digital para as lentes ou seja uma Olympus Pen. Só ao fim de 3 meses é que encontrei filme à venda pelo que todas as imagens aqui apresentadas foram feitas com a Pen.

Kuwait city vista a partir de Salmiya    ©2013

Kuwait city vista a partir de Salmiya ©2013

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